junho 19, 2011

Cultura: Em 2011, Serralves aproxima as artes visuais das performativas


"Improvisações/Colaborações" é um dos grandes destaques de 2011, ano em que a instituição aposta como nunca na internacionalização.
A relação entre as artes visuais e performativas, um dos maiores "esteiros da comunidade artística", vai ser um dos maiores objectos de reflexão de Serralves durante o ano de 2011, avançou esta quarta-feira, em conferência de imprensa, João Fernandes, director do Museu de Arte Contemporânea (MAC).
"Improvisações/Colaborações" aproxima dois mundos que chegaram a estar em oposição. Durante três meses, de Abril a Junho, o museu cruza manifestações das artes do espaço (as visuais) com as do tempo (acções performativas que envolvem imagem em movimento), num ciclo que tem como centro "Off Of The Wall". Esta exposição, co-produzida com o Whitney Museum for Contemporary Art, reúne 30 acções performativas de artistas como Dara Birnbaum, Roy Lichtenstein, Robert Mapplethorpe, Yoko Ono, Cindy Sherman ou Andy Warhol.
É, por isso, uma "iniciativa de grande fôlego", enfatiza João Fernandes. É também neste ciclo que a dança contemporânea, que tão arredada está dos palcos portuenses, regressa em força à cidade. De 18 de Abril a 1 de Maio, a Trisha Brown Company celebra o 40.º aniversário com a apresentação de 13 peças que compõem a sequência "Early Works". Já Deborah Hay traz, de Março a Julho, o projecto OPorto Solo Comission Project, uma encomenda da Fundação de Serralves, em que a coreógrafa trabalha com alguns artistas seleccionados num longobrainstorming performativo.

Som e Imagem

Há tempos que a arte e a musica deixaram de estabelecer uma relação de dicotomia para convergir rumo a um mesmo campo. O século XX foi o grande desencadeador da união entre essas duas categorias, iniciando com a pesquisa de artistas e músicos que passaram a questionar as concepções da arte como mero objeto visual estático ou da música como um elemento necessariamente sincrônico. A percepção do ruído como potência sonora e a ligação quase que indissociável entre imagem e som levaram a ampliação dos horizontes sinestésicos no campo artístico.
Pensando no som/barulho já inserido como instrumento de criação e proposição no campo visual, intento reunir neste trabalho uma linha chave de relações entre a musica e as artes plásticas, partindo de trabalhos experimentais da década de 60 até chegar ao cenário atual, analisando as diferentes materializações do conceito sonoro e a relação entre obra e público. Para tanto, utilizarei como base exemplificativa o trabalho de um grupo de artistas contemporâneos, o Chelpa Ferro.
Esse coletivo é formando por três artistas brasileiros: Luiz Zerbini, Sergio Mekler e Barrão; cada qual com uma trajetória individual bastante distinta. Barrão é reconhecido por seu trabalho escultórico, no qual utiliza sobras e fragmentos de objetos cotidianos; Sérgio Melker edita e constrói vídeos atados a fragmentos de imagens  e  Luiz Zerbini consta com uma fundamentada carreira no ramo da pintura. A fusão entre estas referências pessoais da origem ao trabalho do Chelpa, que dificilmente pode ser enquadrado em um única esfera, permeando pelos ramos da instalação, música experimental, performance, sound art, etc.
Fazendo uso dessas mídias variadas, o grupo propõe uma revisitação sensorial, tendo como elemento condutivo a utilização do ruído. As obras do Chelpa buscam suas bases tanto nos clássicos experimentalistas do Fluxus, tal como John Cage, permeando ainda por expoentes da música underground  e pela utilização de materiais “ordinários” que muitas vezes fazem referência a cultura popular local. Trata-se portanto de uma abordagem massiva acerca de todas as vertentes que permearam pelo campo congruente entre música e artes visuais, revisitando esta temática através do olhar contemporâneo e da troca com o publico.

“ [...] O Chelpa Ferro não propõe uma unificação dos sentidos com que se apreende o mundo, limitando-se a indicar a possibilidade de traduzi-los uns nos demais, sem hierarquias definidas e de forma inescapavelmente truncada. Em vez de advogar o apagamento das diferenças entre as faculdades do olhar e da escuta, o que o grupo faz é oferecer, a quem se aproxime de seus trabalhos, um embaralhamento sensorial. [...]”
Moacir dos Anjos
http://ml.virose.pt/blogs/si_11/?p=223
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...